{"id":2525,"date":"2020-07-09T18:06:35","date_gmt":"2020-07-09T18:06:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/?p=2525"},"modified":"2025-10-18T21:32:51","modified_gmt":"2025-10-18T21:32:51","slug":"joao-cabral-de-melo-neto-o-ex-cacdista-centenario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/?p=2525","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto: o ex-CACDista centen\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Foto: reprodu\u00e7\u00e3o (internet)<\/p>\n<hr \/>\n<p>Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto nasceu em 9 de janeiro de 1920, no engenho de Po\u00e7o do Aleixo, em S\u00e3o Louren\u00e7o da Mata, Recife (PE). Poeta da terceira gera\u00e7\u00e3o modernista no Brasil, a Gera\u00e7\u00e3o de 45, ele \u00e9 dono de uma obra marcada pelo rigor da forma, pela clareza da express\u00e3o e pela genialidade do conte\u00fado. O tema central da produ\u00e7\u00e3o cabralina \u00e9 sem d\u00favida a aridez do sert\u00e3o nordestino \u2014 a saga do retirante. Mas o sert\u00e3o de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto \u00e9 feito de poesia oral, a exemplo dos cord\u00e9is. \u00c9 regional, sem cair no regionalismo. Contudo, sua poesia tamb\u00e9m comporta espa\u00e7o para a metalingu\u00edstica do of\u00edcio de escrever.<\/p>\n<p>Pela relev\u00e2ncia de suas obras, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, em 1968, e ocupou a cadeira de n\u00famero 37, que antes pertencera ao jornalista Assis Chateaubriand.<\/p>\n<h2>Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto: o ex-CACDista centen\u00e1rio<\/h2>\n<p>O t\u00edtulo deste artigo \u00e9 uma brincadeira. Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto prestou, sim, concurso para a diplomacia em 1945 \u2014 e passou na primeira tentativa. Contudo, ele n\u00e3o foi propriamente um cacdista, j\u00e1 que nessa \u00e9poca o certame chamava-se \u201cexame de admiss\u00e3o ao CPCD\u201d, como eu expliquei nesse v\u00eddeo <a href=\"https:\/\/youtu.be\/LUjwC_J8b3o\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Como diplomata, Jo\u00e3o Cabral teve a oportunidade de observar a diversidade cultural dos lugares por onde passou e de fazer disso combust\u00edvel para a escrita. A diplomacia lhe deu oportunidade de conviver com artistas e intelectuais que complementaram de modo <em>sui generis<\/em> a sua est\u00e9tica de observa\u00e7\u00e3o e escrita da vida.<\/p>\n<p>No ano de centen\u00e1rio do poeta, vale a pena atentar para a possibilidade de que alguma de suas obras conste da prova do CACD.<\/p>\n<h2>Inf\u00e2ncia<\/h2>\n<p>O poeta passou a inf\u00e2ncia no interior de Pernambuco, onde estudou em col\u00e9gio Marista. Tentou cantar no coro dos meninos, mas era desafinado. Voca\u00e7\u00e3o para o futebol ele at\u00e9 tinha. Mas gostava mesmo era de ler romances de cordel, escondido do pai, aos domingos, para os trabalhadores iletrados do engenho de a\u00e7\u00facar da fam\u00edlia, onde ele brincava com os moleques na bagaceira. Come\u00e7ou a se interessar por literatura aos 17 anos, e passou a frequentar o <em>Caf\u00e9 Lafayette<\/em>, ponto de encontro de intelectuais no Recife. Embora sempre tivesse gostado de ler e escrever, reclamava que detestava os poemas que o faziam ler no col\u00e9gio, todos parnasianos e l\u00edricos, que ele considerava desinteressantes e derretidos. Nessa \u00e9poca ele teve contato com a obra \u201cBrejo das Almas\u201d, de Carlos Drummond de Andrade. Ali Jo\u00e3o Cabral descobriu uma poesia que tangenciava o lugar-comum do lirismo. Vislumbrou a possibilidade de escrever poesia sem falar de sentimentos, sem rebuscamento da orat\u00f3ria, uma poesia mais ir\u00f4nica e de temas cotidianos.<\/p>\n<h2>Escrita e diplomacia<\/h2>\n<p>Jo\u00e3o Cabral n\u00e3o acreditava na inspira\u00e7\u00e3o como elemento da escrita e dizia que a estrutura de um poema tem que ser arquitetada. A obra cabralina foi fortemente influenciada pelos pintores cubistas. Quando serviu em Sevilha, o poeta conviveu estreitamente com Joan Mir\u00f3, que \u00e0 \u00e9poca fora proibido de expor suas obras, durante o governo franquista. Essa amizade fez Jo\u00e3o Cabral publicar o ensaio \u201cJoan Mir\u00f3\u201d, com as telas originais que o artista pintou na Fran\u00e7a durante a segunda guerra e na pr\u00f3pria Catalunha, as quais o grande p\u00fablico s\u00f3 viria a conhecer muitos anos depois.<\/p>\n<p>Em entrevista a um grande ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o, o poeta afirma que, se n\u00e3o tivesse sido diplomata, sua literatura teria sido completamente diferente.<\/p>\n<h2>Servidor P\u00fablico. Diplomata pernambucano a servi\u00e7o do Brasil.<\/h2>\n<p>Jo\u00e3o Cabral foi servidor p\u00fablico no extinto DASP, o Departamento Administrativo do Servi\u00e7o P\u00fablico, de 1943 a 1945, quando entrou para a diplomacia. Barcelona, Londres, Sevilha, Genebra, Assun\u00e7\u00e3o, Honduras, Senegal e Porto est\u00e3o entre os postos em que Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto serviu como diplomata at\u00e9 a aposentadoria, como embaixador, em 1990.<\/p>\n<h2>Jo\u00e3o e a prensa tipogr\u00e1fica<\/h2>\n<p>Quando o m\u00e9dico recomendou ao diplomata que fizesse exerc\u00edcios f\u00edsicos, a ordem foi imediatamente acatada e converteu-se na materializa\u00e7\u00e3o de uma prensa tipogr\u00e1fica manual! A prensa, na concep\u00e7\u00e3o peculiar de Jo\u00e3o Cabral, demandava muito trabalho bra\u00e7al e era ent\u00e3o a sa\u00edda perfeita para se exercitar enquanto produzia livros de poesia. Assim surgia a editora caseira e artesanal do poeta, \u00e0 que ele chamou \u201cO Livro Incons\u00fatil\u201d. O primeiro livro publicado foi \u201cPsicologia da Composi\u00e7\u00e3o\u201d, embora ele tivesse tentado estrear a tipografia com os escritos de <a href=\"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/2020\/06\/25\/clariceanas-no-cacd-2020-lispector-faz-100\/\">Clarice Lispector<\/a>, que \u00e0 \u00e9poca escrevia \u201cA cidade sitiada\u201d e \u201cO coro dos Anjos\u201d \u2014 o alvo real de Jo\u00e3o. \u201cFico a esperar \u2018O coro dos anjos\u2019\u201d, diz o poeta \u00e0 amiga, em carta. Essa hist\u00f3ria pode ser lida <a href=\"https:\/\/claricelispectorims.com.br\/do-acervo\/clarice-lispector-e-joao-cabral-uma-historia-tipografica\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>A editora de Jo\u00e3o Cabral deu vida a obras de Manuel Bandeira, Cec\u00edlia Meireles, Vin\u00edcius de Moraes, L\u00eado Ivo, Joan Brossa e outros tantos.<\/p>\n<h2>Morte e Vida Severina: a obra mais aclamada<\/h2>\n<p>Um cl\u00e1ssico, que todos j\u00e1 leram ou de que j\u00e1 ouviram falar no ensino m\u00e9dio, com adapta\u00e7\u00f5es para cinema, teatro, televis\u00e3o e ind\u00fastria musical. Narra a hist\u00f3ria de Severino, o retirante nordestino que deixa o sert\u00e3o \u00e1rido e seco em busca de uma vida melhor no litoral da cidade grande. Para Jo\u00e3o Cabral, ela nem \u00e9 sua obra mais significativa. O auto de natal foi uma encomenda de Maria Clara Machado para encena\u00e7\u00e3o n\u2019O Tablado, a qual n\u00e3o se concretizou. Nesse texto da <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2020-01\/cem-anos-de-joao-cabral-uma-vida-em-prosa-e-verso\">Ag\u00eancia Brasil<\/a> h\u00e1 uma entrevista em que o bi\u00f3grafo de Jo\u00e3o Cabral, Ant\u00f4nio Secchin, fala desta e de outras obras do poeta. Na mesma entrevista h\u00e1 um relato da escritora Inez Cabral, filha de Jo\u00e3o Cabral, autora de \u201cA Literatura como turismo\u201d, obra em que me baseei para escrever este artigo, dentre outras fontes.<\/p>\n<h2>Poesia e Prosa<\/h2>\n<p>&#8220;Pedra do sono&#8221;, 1942; &#8220;O engenheiro&#8221;, 1945; &#8220;O c\u00e3o sem plumas&#8221;, 1950; &#8220;O rio&#8221;, 1954; &#8220;Quaderna&#8221;, 1960; &#8220;Poemas escolhidos&#8221;, 1963; &#8220;A educa\u00e7\u00e3o pela pedra&#8221;, 1966; &#8220;Morte e vida severina e outros poemas em voz alta&#8221;, 1966; &#8220;Museu de tudo&#8221;, 1975; &#8220;A escola das facas&#8221;, 1980; &#8220;Agreste&#8221;, 1985; &#8220;Auto do frade&#8221;, 1986; &#8220;Crime na Calle Relator&#8221;, 1987; &#8220;Sevilla andando&#8221;, 1989.<\/p>\n<p>Em prosa Jo\u00e3o Cabral publicou o j\u00e1 citado &#8220;Joan Mir\u00f3&#8221;, em 1952, &#8220;Considera\u00e7\u00f5es sobre o poeta dormindo&#8221;, em 1941, e \u201cO Brasil no arquivo das \u00cdndias de Sevilha&#8221;, importante trabalho de pesquisa hist\u00f3rico-documental, editado pelo Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e fonte de refer\u00eancia sobre os feitos mar\u00edtimos de navegadores espanh\u00f3is e portugueses na \u00e9poca da descoberta da Am\u00e9rica e do Brasil.<\/p>\n<p>A lista completa de obras voc\u00ea encontra neste <a href=\"http:\/\/www.academia.org.br\/academicos\/joao-cabral-de-melo-neto\/bibliografia\">link<\/a>.<\/p>\n<h2>Pr\u00eamios<\/h2>\n<p>Pr\u00eamio Jos\u00e9 de Anchieta, de poesia, do IV Centen\u00e1rio de S\u00e3o Paulo (1954); Pr\u00eamio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (1955); Pr\u00eamio de Poesia do Instituto Nacional do Livro; Pr\u00eamio Jabuti, da C\u00e2mara Brasileira do Livro; Pr\u00eamio Bienal Nestl\u00e9, pelo conjunto da Obra e Pr\u00eamio da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores, pelo livro, Pr\u00eamio Cam\u00f5es de Literatura (1990).<\/p>\n<h2>Algumas obras traduzidas<\/h2>\n<p><em>Education by Stone: Selected Poems<\/em><\/p>\n<p><em>Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto: Selected Poetry<\/em><\/p>\n<p><em>La educacion por la piedra<\/em><\/p>\n<p><em>Death and life of Severino<\/em> (tradu\u00e7\u00e3o de John Milton). H\u00e1 tamb\u00e9m excertos da obra traduzidos por Elizabeth Bishop.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.rfi.fr\/br\/cultura\/20200117-celebrado-no-brasil-em-centen%C3%A1rio-jo%C3%A3o-cabral-de-melo-neto-n%C3%A3o-tem-livros-traduzido\">N\u00e3o h\u00e1 obras completas de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto traduzidas para o franc\u00eas<\/a>, apenas sele\u00e7\u00f5es de trechos.<\/p>\n<p>Espero que esse artigo ajude voc\u00ea em seus estudos sobre literatura brasileira.<\/p>\n<p>Bons estudos e sucesso!<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Veja, a seguir, algumas vers\u00f5es interessantes de <em>Morte e Vida Severina<\/em>, a obra-prima do autor, em m\u00eddias distintas:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=clKnAG2Ygyw\">Anima\u00e7\u00e3o Morte e Vida Severina<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=typbvASMt8Y\"><em>Morte e Vida Severina<\/em> TUCA, 1966<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MthmmdJgQXY\">Especial <em>Morte e Vida Severina<\/em> (1981), protagonizado por Jos\u00e9 Dumont. <em>Copyright<\/em> Rede Globo de Televis\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=z--VNQUENbE\">Chico Buarque canta <em>Funeral de um Lavrador<\/em>, 1968<\/a><\/p>\n<p>E veja o poeta Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto falando da pr\u00f3pria poesia!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto comenta sobre a poesia e sua obra\" width=\"1080\" height=\"810\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EJRwt5-rllQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: reprodu\u00e7\u00e3o (internet) Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto nasceu em 9 de janeiro de 1920, no engenho de Po\u00e7o do Aleixo, em S\u00e3o Louren\u00e7o da Mata, Recife (PE). Poeta da terceira gera\u00e7\u00e3o modernista no Brasil, a Gera\u00e7\u00e3o de 45, ele \u00e9 dono de uma obra marcada pelo rigor da forma, pela clareza da express\u00e3o e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2527,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[202,193],"tags":[204,209,210,373,234,233,207,312,311,375,219,374,228,232,236],"class_list":["post-2525","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cacd-literatura","category-diplomacia","tag-cacd","tag-cacd-2020","tag-cacdista","tag-carreira-diplomatica","tag-ceacedista","tag-concurso-diplomata","tag-diplomacia","tag-instituto-rio-branco","tag-itamaraty","tag-joao-cabral-de-melo-neto-centenario","tag-literatura","tag-morte-e-vida-severina","tag-prova-cacd","tag-prova-diplomacia","tag-pupila-do-barao-cacd"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2525","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2525"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2525\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10921,"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2525\/revisions\/10921"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2527"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2525"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2525"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2525"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}