{"id":2490,"date":"2020-06-25T16:03:34","date_gmt":"2020-06-25T16:03:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/?p=2490"},"modified":"2025-10-18T21:38:11","modified_gmt":"2025-10-18T21:38:11","slug":"clariceanas-no-cacd-2020-lispector-faz-100","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/?p=2490","title":{"rendered":"Clariceanas no CACD 2020: Lispector faz 100"},"content":{"rendered":"<p>Este ano marca o centen\u00e1rio de nascimento de Clarice Lispector, a ucraniana mais brasileira de que se tem not\u00edcia. Nascida Haia Lispector aos 10 de dezembro de 1920, ela foi uma mulher \u00e0 frente de sua \u00e9poca. Soube traduzir, com maestria e alto grau de poeticidade, dilemas profundos da alma humana. Tinha sede de mundo, de cultura, de vida.<\/p>\n<p>Uma de suas obras mais populares \u00e9 <em>A Hora da Estrela<\/em>, a \u00faltima da autora, escrita em 1977 e publicada postumamente em 1978.<\/p>\n<h3>Carta ao Presidente<\/h3>\n<p>Aos 21 anos, em face da guerra e da urg\u00eancia de casar-se com o diplomata brasileiro Maury Gurgel Valente, Clarice redige uma carta ao ent\u00e3o presidente Get\u00falio Vargas, na qual lhe pede a naturaliza\u00e7\u00e3o, concedida em 12 de janeiro de 1943:<\/p>\n<p style=\"font-size: 28px; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/correioims.com.br\/carta\/o-direito-de-ser-brasileira\/\">O DIREITO DE SER BRASILEIRA<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Rio de Janeiro, 3 de junho de 1942<\/p>\n<p>Senhor Presidente Get\u00falio Vargas,&nbsp;<\/p>\n<p>Quem lhe escreve \u00e9 uma jornalista, ex-redatora da Ag\u00eancia Na\u00adcional (Departamento de Imprensa e Propaganda), atualmente n\u2019<em>A Noite<\/em>, acad\u00eamica da Faculdade Nacional de Direito e, casual\u00admente, russa tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Uma russa de 21 anos de idade e que est\u00e1 no Brasil h\u00e1 21 anos menos alguns meses. Que n\u00e3o conhece uma s\u00f3 palavra de russo mas que pensa, fala, escreve e age em portugu\u00eas, fazendo disso sua profiss\u00e3o e nisso pousando todos os projetos do seu futuro, pr\u00f3ximo ou long\u00ednquo. Que n\u00e3o tem pai nem m\u00e3e \u2014 o primeiro, assim como as irm\u00e3s da signat\u00e1ria, brasileiro naturalizado \u2014 e que por isso n\u00e3o se sente de modo algum presa ao pa\u00eds de onde veio, nem sequer por ouvir relatos sobre ele. Que deseja casar-se com brasileiro e ter filhos brasileiros. Que, se fosse obrigada a voltar \u00e0 R\u00fassia, l\u00e1 se sentiria irremediavelmente estrangeira, sem amigos, sem profiss\u00e3o, sem esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Senhor presidente. N\u00e3o pretendo afirmar que tenho prestado grandes servi\u00e7os \u00e0 Na\u00e7\u00e3o \u2014 requisito que poderia alegar para ter di\u00adreito de pedir a vossa excel\u00eancia a dispensa de um ano de prazo, necess\u00e1rio a minha naturaliza\u00e7\u00e3o. Sou jovem e, salvo em ato de hero\u00edsmo, n\u00e3o poderia ter servido ao Brasil sen\u00e3o fragilmente. Demonstrei minha liga\u00e7\u00e3o com esta terra e meu desejo de servi-la, cooperan\u00addo com o DIP, por meio de reportagens e artigos, distribu\u00eddos aos jornais do Rio e dos Estados, na divulga\u00e7\u00e3o e na propaganda do governo de vossa excel\u00eancia. E, de um modo geral, trabalhando na impren\u00adsa di\u00e1ria, o grande elemento de aproxima\u00e7\u00e3o entre governo e povo.<\/p>\n<p>Como jornalista, tomei parte em comemora\u00e7\u00f5es das grandes datas nacionais, participei da inaugura\u00e7\u00e3o de in\u00fameras obras ini\u00adciadas por vossa excel\u00eancia, e estive mesmo ao lado de vossa excel\u00eancia mais de uma vez, sendo que a \u00faltima em l\u00ba de maio de 1941, Dia do Trabalho.<\/p>\n<p>Se trago a vossa excel\u00eancia o resumo dos meus trabalhos jornal\u00edsticos n\u00e3o \u00e9 para pedir-lhe, como recompensa, o direito de ser brasileira. Prestei esses servi\u00e7os espont\u00e2nea e naturalmente, e nem poderia deixar de execut\u00e1-los. Se neles falo \u00e9 para atestar que j\u00e1 sou bra\u00adsileira.<\/p>\n<p>Posso apresentar provas materiais de tudo o que afirmo. In\u00adfelizmente, o que n\u00e3o posso provar materialmente \u2014 e que, no entanto, \u00e9 o que mais importa \u2014 \u00e9 que tudo que fiz tinha como n\u00facleo minha real uni\u00e3o com o pa\u00eds e que n\u00e3o possuo, nem elege\u00adria, outra p\u00e1tria sen\u00e3o o Brasil.<\/p>\n<p>Senhor presidente. Tomo a liberdade de solicitar a vossa excel\u00eancia a dispensa do prazo de um ano, que se deve seguir ao processo que atualmente transita pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, com todos os re\u00adquisitos satisfeitos. Poderei trabalhar, formar-me, fazer os indis\u00adpens\u00e1veis projetos para o futuro, com seguran\u00e7a e estabilidade. A assinatura de vossa excel\u00eancia tornar\u00e1 de direito uma situa\u00e7\u00e3o de fato. Creia-me, senhor presidente, ela alargar\u00e1 minha vida. E um dia saberei provar que n\u00e3o a usei inutilmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Clarice Lispector<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">(Clarice Lispector. <em>Correspond\u00eancias<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, pp. 33-34)<\/p>\n<h2>Algumas das obras<\/h2>\n<p>1943 \u2014 <strong>Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem<\/strong>. Livro de estreia de Clarice.<\/p>\n<p>1946 \u2014 <strong>O Lustre<\/strong><\/p>\n<p>1948 \u2014 <strong>A Cidade Sitiada<\/strong>, escrito em Berna, durante o per\u00edodo em que Clarice acompanhou o marido diplomata na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>1960 \u2014 <strong>\u00c1gua Viva<\/strong><\/p>\n<p>1977 \u2014 <strong>A hora da estrela<\/strong><\/p>\n<h2>Obras da autora traduzidas para o franc\u00eas, o espanhol e o ingl\u00eas<\/h2>\n<p><strong>Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem<\/strong> \u2014 <em>Pr\u00e8s du coeur sauvage<\/em>; <em>Cerca del coraz\u00f3n salvaje<\/em>; <em>Near to the wild heart<\/em><\/p>\n<p><strong>O Lustre<\/strong> \u2014 <em>Le lustre<\/em>; <em>La l\u00e1mpara<\/em>; <em>The chandelier<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c1gua Viva<\/strong> \u2014 <em>Agua viva<\/em>; <em>The stream of life<\/em><\/p>\n<p><strong>A Hora da Estrela<\/strong> \u2014 <em>L\u2019heure de l\u2019\u00e9toile<\/em>; <em>La hora de la estrella<\/em>; <em>The hour of the star<\/em><\/p>\n<p><strong>A Cidade Sitiada<\/strong> \u2014 <em>La ciudad sitiada<\/em><\/p>\n<h2>Minha aposta: Clarice pode aparecer no CACD 2020<\/h2>\n<p>Ano de centen\u00e1rio da autora. Bibliografia j\u00e1 traduzida para os idiomas cobrados no concurso. Isso cheira a CACD. Se eu fosse membro da banca, voc\u00ea encontraria uma quest\u00e3o minha pedindo a vers\u00e3o de um trecho de algum t\u00edtulo da Clarice nas suas provas de l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Para sua sorte ou para seu azar, eu n\u00e3o estou na banca do CACD, mas, ainda assim, sugiro que voc\u00ea olhe com carinho para trechos escolhidos das obras de Lispector, seja das mais famosas, como <em>A Hora da Estrela<\/em>, seja das menos conhecidas, como <em>A Cidade Sitiada<\/em>, e tente fazer suas pr\u00f3prias vers\u00f5es ou tradu\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas, franc\u00eas e espanhol. E depois coteje com as edi\u00e7\u00f5es das l\u00ednguas-alvo para ver como se saiu no exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>Mas, antes de tudo, procure conhecer Clarice na nossa l\u00edngua materna: porque pode ser a hora e a vez de Madame Lispector abrilhantar a prova de L\u00edngua Portuguesa do CACD 2020.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo artigo falar\u00e1 do centen\u00e1rio de um outro gigante da literatura brasileira: Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto.<\/p>\n<p>Bons estudos e sucesso!<\/p>\n<hr>\n<p>Cr\u00e9ditos:<\/p>\n<p>Foto: internet\/reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Fundo do papel da carta: Aopsan para Freepik<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ano marca o centen\u00e1rio de nascimento de Clarice Lispector, a ucraniana mais brasileira de que se tem not\u00edcia. Nascida Haia Lispector aos 10 de dezembro de 1920, ela foi uma mulher \u00e0 frente de sua \u00e9poca. Soube traduzir, com maestria e alto grau de poeticidade, dilemas profundos da alma humana. 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