{"id":9,"date":"2019-08-31T13:06:53","date_gmt":"2019-08-31T13:06:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/?page_id=9"},"modified":"2026-04-29T15:27:52","modified_gmt":"2026-04-29T15:27:52","slug":"sobre","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/pupiladobarao.com.br\/?page_id=9","title":{"rendered":"Sobre"},"content":{"rendered":"<p>Pessoa parda. Nascida no dia de Jorge Guerreiro, segundo a tradi\u00e7\u00e3o do candombl\u00e9; dia tamb\u00e9m do advento de Shakespeare. O ano: 1979. Educada por m\u00e3e preta, solteira e dom\u00e9stica subjugada pela vida e por um contexto social que a privara da forma\u00e7\u00e3o escolar que poderia ter-nos dado uma vida menos rude. Jamais conheci meu pai, que abandou minha m\u00e3e gr\u00e1vida de mim no s\u00e9timo m\u00eas da gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde muito cedo, observando-a exercer seu of\u00edcio em casas alheias, desejei uma sorte diferente da dela; intentei seguir a Medicina, inclina\u00e7\u00e3o despertada, talvez, pelo fato de eu haver passado uma parte da inf\u00e2ncia na casa da fam\u00edlia que recebera a minha genitora como \u201cfilha de cria\u00e7\u00e3o\u201d, eufemismo para explora\u00e7\u00e3o de trabalho infantil. Seus patr\u00f5es eram profissionais de sa\u00fade, e com eles convivi do nascimento aos cinco anos, ininterruptamente, morando com minha m\u00e3e no quartinho de empregada do apartamento de classe m\u00e9dia tijucano, e, depois, intermitentemente, at\u00e9 a puberdade.<\/p>\n<p>Quando minha m\u00e3e engravidou do meu irm\u00e3o, meu pequeno mundo sofreu uma reviravolta. A patroa n\u00e3o aceitara uma segunda crian\u00e7a (indesejada) em sua casa (o que compreendo), convidando-nos a retirar-nos de seu espa\u00e7o, embora continuasse utilizando-se dos servi\u00e7os gerais de minha m\u00e3e. A n\u00f3s nos restou o \u00fanico caminho vi\u00e1vel para uma dom\u00e9stica assalariada com duas crian\u00e7as pequenas: a favela. O Morro da Formiga, na Cidade Maravilhosa para alguns, foi, por cinco longos anos, a minha morada. Lembro-me da estranha sensa\u00e7\u00e3o de caminhar pelas ruelas estreitas de terra batida que, em dias chuvosos, salpicavam de lama pegajosa e fedorenta meus sonhos de menina. Mas a favela me ensinou \u2014 na medida que uma crian\u00e7a \u00e9 capaz de compreender os fatos da vida \u2014 bastantes coisas em curto espa\u00e7o de tempo. Por exemplo, que h\u00e1 mais gente boa e de bem no morro do que reza o senso comum. Que \u00e9 poss\u00edvel ser contente com pouco. Que h\u00e1 beleza em meio \u00e0 feiura aparente, dependendo dos olhos de quem v\u00ea. E tamb\u00e9m que h\u00e1 perigos reais espreitando feito lobos famintos as almas desavisadas. Por vontade exclusiva do Senhor do Universo, fomos retirados dali antes que eu entrasse na adolesc\u00eancia, segunda fase crucial e decisiva para uma vida adulta equilibrada. N\u00e3o sei que caminhos eu teria percorrido, se aquela fosse a minha realidade \u00fanica. O fato \u00e9 que a vida seguiu trazendo-nos, no momento oportuno, a chance de novas e melhores experi\u00eancias. Eu tinha dez anos quando minha sorte novamente mudou.<\/p>\n<p>A patroa de minha m\u00e3e \u2014 a quem carinhosamente eu chamei de \u201cv\u00f3\u201d a vida inteira \u2014 foi promovida a um cargo de chefia em renomado hospital de Aracaju, capital sergipana, e convidou minha m\u00e3e a seguir viagem junto. Diante do aceite, seguimos para o Nordeste e l\u00e1 ficamos por dois anos. Foi um tempo bom, que me ampliou as perspectivas de mundo. Estudei no Col\u00e9gio Atheneu Sergipense, p\u00fablico de qualidade, e minha estada ali foi feliz. Por\u00e9m, como a roda da vida \u00e9 din\u00e2mica, a aventura seguinte foi a mudan\u00e7a de Aracaju para Nova Friburgo, regi\u00e3o serrana do Rio de Janeiro, novamente com a patroa da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Passei naquela cidade querida toda a minha adolesc\u00eancia e parte da vida adulta. Ali adquiri os alicerces de princ\u00edpios e valores que tanto prezo. Ali me iniciei no maravilhoso mundo das Letras, minha \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o que tanto contentamento me traz (a Medicina nunca aconteceu na minha vida). Ali trabalhei como jornalista, professora e tradutora. Ali despertei para a espiritualidade. Ali constru\u00ed e desconstru\u00ed amores. Ali tive minha primog\u00eanita querida. Plantei \u00e1rvores. E tamb\u00e9m escrevi meu primeiro livro nunca publicado: <i>Cheiro de Flor \u2014 grandes hist\u00f3rias para gente pequenina (s\u00f3 no tamanho)<\/i>.<\/p>\n<p>J\u00e1 posso morrer?<\/p>\n<p>N\u00e3o, ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenho um grande projeto pela frente: tornar-me diplomata, porque, parafraseando o poeta,<\/p>\n<p style=\"margin-top: 15px; font-family: 'EB Garamond', sans-serif; font-size: 18px; padding-left: 40px; text-align: center;\"><em>(&#8230;) eu sou do<\/em><\/p>\n<p style=\"font-family: 'EB Garamond', sans-serif; font-size: 18px; padding-left: 40px; text-align: center;\"><em>tamanho do que vejo.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-family: 'EB Garamond', sans-serif; font-size: 18px; padding-left: 40px; text-align: center;\"><em>E n\u00e3o do tamanho da<\/em><\/p>\n<p style=\"font-family: 'EB Garamond', sans-serif; font-size: 18px; padding-left: 40px; text-align: center;\"><em>minha altura&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-family: 'EB Garamond', sans-serif; font-size: 18px; padding-left: 40px; text-align: center;\"><em>E o que vejo s\u00e3o meus sonhos.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-family: 'EB Garamond', sans-serif; font-size: 18px; text-indent: 35.4pt; text-align: center;\">(<i>O Guardador de Rebanhos<\/i>, por Alberto Caeiro, heter\u00f4nimo de Fernando Pessoa.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pessoa parda. 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